A PEÇONHA DA REJEIÇÃO
Públio José – jornalista
(publiojose@garrapropaganda.com.br)
Para o dicionário dos homens o termo “rejeição” é semelhante a asco, nojo, ódio. Um significado, portanto, bastante forte para um sentimento que o mundo moderno desdenhou e que a música popular e a mídia entronizaram como banal entre tantos outros sentimentos voltados ao relacionamento humano. Entretanto, a rejeição é um dos piores sentimentos que alguém pode nutrir por outra pessoa – em resumo, uma verdadeira peçonha. Atualmente é facílimo rejeitar as pessoas. Por desconhecerem o seu real significado, e as conseqüências danosas da sua prática inconseqüente, as pessoas não estão nem aí para as enormes feridas que estão causando no próximo quando passam a rejeitá-lo sem maiores justificativas. Os altos e atuais índices de criminalidade, os grandes conflitos, as grandes conflagrações que tantos males têm causado à humanidade tiveram início através de inocentes gestos de rejeição.
E o pior é que muitas vezes uma maldosa atitude de rejeição está atrelada, tão somente, a obediência a simples conveniências sociais. Hoje em dia ninguém nem pára para pensar. E as seqüelas vão ficando, vão se acumulando, até explodirem em conflitos de dimensões inimagináveis. Na política nem se fala; rejeitar é o recurso mais adotado por todos, principalmente pelos derrotados. Quando as alianças são desfeitas vão juntos para o ralo da rejeição todos os motivos que mantinham um bom relacionamento entre os antigos aliados. Por esse ângulo de raciocínio é como se as pessoas estivessem vivendo ainda na Lei do Velho Testamento, no qual a regra era “dente por dente, olho por olho”. As músicas de antigamente já nos orientavam “só vou gostar de quem gosta de mim”, enquanto as atuais dizem a mesma coisa com vocábulos diferentes.
Falando em Velho Testamento, há uma passagem na Bíblia que ilustra muito bem o profundo estrago que a rejeição estabelece no relacionamento entre as pessoas. No livro de 2 Samuel, o capítulo 13 narra a saga de Tamar e Amnom. Ambos eram filhos de Davi, porém de mães diferentes. Tamar era conhecida pela sua beleza radiante. Era virgem. Amnom nutria pelos outros irmãos um ódio extremado em virtude da situação conjugal do pai e da rejeição que sofria da parte deles. Daí arder em Amnom um forte sentimento de vingança. Desse conflito doméstico surge uma paixão doentia de Amnom pela sua irmã Tamar. Ardilosamente, Amnom atrai Tamar para uma armadilha. Finge-se de doente e pede à irmã que leve algum alimento ao seu quarto. Lá estupra Tamar para destilar seu ódio contra os outros irmãos. Entretanto, o que mais chama a atenção na cena é a reação de Tamar.
Após o estupro, Amnom expulsa Tamar de seu quarto. Ela reclama da violência do ato de expulsão. Chamando um criado, Amnom consuma seu ódio atirando-a violentamente para fora do castelo. Segue-se o doloroso diálogo: “Disse-lhe Amnom: Levanta-te, vai-te embora”. Então ela lhe disse: “Não, meu irmão; porque maior é esta injúria, lançando-me fora, do que a outra que me fizeste”. Porém ele não a quis ouvir. Chamou a seu moço, que o servia, e disse: “Deita fora esta e fecha a porta após ela”. Assim, em poucos minutos, Tamar foi vítima de dois tipos de violência. Primeiramente o estupro; em segundo lugar a rejeição. À primeira enfrentou com a galhardia dos valentes; a segunda lhe atingiu profundamente a alma e feriu de morte o seu espírito. A primeira injúria agrediu-lhe a carne. A segunda incrustou-se no mais profundo do seu ser e produziu um enorme abalo em sua estrutura psíquica.
Ninguém brinque com a rejeição. Ela apequena, tritura, machuca, dói. Além do mais joga na cara do rejeitado a sua insignificância social, econômica, política. Sugerindo, em contrapartida, desejos enormes de vingança. É um sentimento perigoso, além do mais, porque falseia os fatos. Nunca, por exemplo, alguém foi condenado por rejeitar outrem. Mas a semente da rejeição, após ser plantada, já levou muita gente a praticar crimes de nefastas proporções. Ah, antes que esqueça: a brutalhada de Amnom gerou em Absalão, irmão de Tamar de pai e mãe, um tresloucado desejo de morte. Tempos depois, Absalão convidou Amnom para uma festa em sua casa, juntamente com os demais irmãos, e deu ordem a seus empregados para matá-lo após embebedá-lo com vinho. Como se vê, a atitude de rejeitar alguém pode se transformar de uma simples ante-sala em palco principal de grandes tragédias.

