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Sexta-feira, 15 de Agosto de 2008
ELES NÃO QUEREM PAGAR

Públio José – jornalista

(publiojose@garrapropaganda.com.br)

                        Como muitos sabem, lancei recentemente meu primeiro livro. Com ele, espero dar o pontapé inicial numa prazerosa carreira literária. Antes, durante e após o lançamento do livro vivi um dos bons momentos de minha vida, manifestado através do carinho, da atenção e do incentivo de familiares, colegas e amigos. Tudo muito bom não fosse o surgimento de uma praga que, desconhecida de mim até então, plantou-se no meu caminho e está me trazendo prejuízos e constrangimentos. Estou falando daquelas pessoas que, utilizando-se de comportamento e argumentos os mais espertos, matreiros e ensaboados, sempre tentam adquirir – de graça! – a única coisa que você tem para vender. Apesar de poderem arcar perfeitamente com os custos de aquisição de um livro – afinal, algo não tão caro assim – se esmeram na atividade do sabichismo, da enrolação, do levar-sem-pagar. Um verdadeiro desplante!

                   Até certo ponto, como profissional de propaganda e marketing, estou acostumado com caloteiros. Sobre estes, os colegas de profissão comentam inclusive que, com o passar do tempo, nós publicitários aprendemos até a enxergá-los de longe. Ao que parece, os maus pagadores se deixam reconhecer pelo andar, pelo falar, pelo jeitão que incorporam ao dia-a-dia. Mostram-se falastrões, metidos a importantes e gesticuladores em excesso, além de se dizerem os bacanas, onde atuam, em termos de conhecimento e relacionamento com personalidades e gente de fama. Acima de tudo, contar vantagem é com eles mesmos. Pois bem, em relação a estes – aos caloteiros, aos maus pagadores – a vida até que me instruiu como divisá-los, catalogá-los e contorná-los em seus maus costumes. Mas da praga de pessoas que têm um jeitinho todo especial para adquirir livros sem pagar eu confesso que, destes, não me livrei.

                   E pior. Dancei feio! Vi-me, em certas ocasiões, passando momentos de grande constrangimento. Ou o que se passa na sua cabeça quando, diante de você, se posta uma pessoa, aparentemente respeitável, com patrimônio de milhões e milhões, e pede para você autografar um exemplar de seu livro e depois diz, com a cara mais sem-vergonha do mundo, “obrigado, Públio, pela gentileza”, se despede e vai embora – sem pagar? Vivendo essa fase de vendedor de livros (afinal, todo autor é vendedor de sua obra), e passivo de enfrentar situações como essa, me veio à mente uma frase que Cacilda Becker colocou em seu camarim, escrita em letras garrafais, bem à vista de todos. Cansada de ser convidada para trabalhar, com o convite sempre acompanhado do inseparável pedido da não cobrança do cachê, ela tascou em seu camarim: “Não me peçam de graça a única coisa que tenho para vender”.

                   Não sei se a grande atriz foi bem sucedida, tendo se livrado das incômodas situações de constrangimento que teve de enfrentar. Também não sei quantas pessoas saíram de seu camarim de rabo entre as pernas diante de tão expressivo brado de protesto contra o mau-caratismo praticado pelos que podem pagar, mas se negam a fazê-lo – certamente por se sentirem mais sabidos do que os outros. O brado de Cacilda também resvalou na falta de respeito, do não reconhecimento da necessidade do artista receber o devido quinhão pela obra produzida. Ou os tais pensam que o autor vive de brisa? O certo é que pessoas assim são portadoras, na realidade, de uma insensibilidade absurda e um desprezo mastodôntico pela produção literária, pelo trabalho dos outros, querendo, enfim, levar de graça o que, muitas vezes, se levou anos e anos para produzir. Vade retro!!!

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