ANO III




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Terça-feira, 1 de Julho de 2008
FILME IMPORTANTE EM CARTAZ (RECOMENDO QUE NÃO DEIXEM DE VER)

Cinema:

A VIDA DOS OUTROS

(The Lives Of Others/ Das Leben der Anderen, Alemanha, 2006)

Por Francisco Vianna

Está em cartaz, um filme do qual se falou muito pouco (talvez devido à atitude de submissão da mídia à governança esquerdopata da qual temos sido vítima nos últimos treze anos) e que é uma obra prima recente do cinema alemão.

O filme mostra a Alemanha Oriental (comunista), dos anos 80, e a ação da famosa “STASI”, a polícia política secreta a serviço da “ditadura do proletariado” comunista, que em tudo se assemelha à SS nazista.  Usa de todos os métodos de tortura para interrogar suspeitos de dissidência e mata sem dó nem piedade. Seus comandantes se gabam de saber tudo sobre todos. Não há espaço para quem for manifeste qualquer crítica ao regime. Qualquer indício de simpatia pelos valores ocidentais pode significar o sumiço do “traidor”. Este foi o cenário que o cineasta e roteirista alemão Florian Henckel Von Donnersmarck escolheu para o seu primeiro longa-metragem, A Vida dos Outros.

Com atilado senso profissional, e uma boa dose de ambição, ele conseguiu produzir, apesar de estar estreando, uma obra cinematográfica com quase 140 minutos de duração, que é uma reconstituição histórica do período que precedeu a queda do muro de Berlim, o fim do comunismo no leste europeu, e as preparações para a reunificação da Alemanha.

Foi muito feliz e o seu roteiro acabou por criar um filme impressionante, que todo brasileiro deve ver e meditar sobre o seu conteúdo. A obra recebeu uma avalanche de prêmios e indicações (o Spirit Independent, Locarno, Londres, Copenhague, Los Angeles, Montreal, Varsóvia, Globo de Ouro e outros) sem falar no tão cobiçado Oscar de Melhor Filme Estrangeiro além do recorde de indicações (onze) no German Film Awards. Gerou uma bilheteria de mais de 11 milhões de euros, apenas na Alemanha, e outros 11 milhões de dólares nos EUA, país que, tradicionalmente, não aceita filmes legendados. Seu custo de produção estaria em torno de dois milhões de dólares. Portanto, um sucesso absoluto.

Todavia, embora não possa inicialmente parecer, A Vida dos Outros não se constitui (apenas) num filme político sobre as barbaridades de um regime ditatorial igual ou pior que o anterior, do nazismo de Adolf Hitler. Vai muito mais além e  aborda profunda e sutilmente a complexidade das relações interpessoais. No início, o filme tem uma aura fria, distante. Parece ser ‘alemão demais’ para a índole e o estilo de vida dos brasileiros, visão esta que, admito, talvez demonstre certa dose de preconceito, mas que tem o poder de abrir os nossos olhos para o que devamos fazer no sentido de evitar que em nosso país semelhante tragédia social venha a se repetir.

No filme, o espectador vai percebendo, com o desenrolar das tramas, que a referida frieza da narrativa é um dos maiores méritos de Von Donnersmarck na sua magistral direção. Na verdade, ela joga o espectador no sombrio mundo da ausência total de liberdade, no asfixiante controle do estado totalitário e na mesquinhez dos interesses da casta governante. As tomadas são “dark”, o desenrolar das cenas é mecânico, e tudo parece despido de sentimentos.

Em tal ambiente amorfo e soturno, vem à tona a figura depressiva e inicialmente prepotente do capitão Gerd (Ulrich Muehe, de Violência Gratuita), agente especial da polícia secreta da Alemanha Oriental, a STASI, que tem como única finalidade servir cegamente à sua república comunista, na qual ele acreditava piamente. Seu rosto é impassível, sua fala é atônica, seu apartamento é de uma pobreza deprimente, como, aliás, era quase tudo naquela parte da Alemanha, em relação à crescente riqueza e opulência da outra parte, a ocidental, capitalista e democrática.  Gerd procura, inclusive, numa cena, atenuar as tensões que lhes são impostas pelo comando da inteligência comunista, contratando uma prostituta tão mecânica e friamente profissional quanto ele, criando-lhe uma profunda insatisfação consigo mesmo e com a vida que vivia.

Do outro lado da estória, está Georg (Sebastian Koch, de Amém), um escritor e dramaturgo, diretor de teatro, e apaixonado pela namorada Christa (Martina Gedek) que tem a rara habilidade de se equilibrar habilmente, mas não menos a custa de humilhações íntimas, entre a fugaz liberdade dos palcos e a opressão da ditadura. O que une estes homens tão diferentes e de nomes tão parecidos é um punhado de escutas clandestinas instaladas no apartamento de Georg.

                                                            

Quanto mais Gerd ouve e percebe a vida de Georg, mais ele mergulha num inesperado mar de sensações antes inconcebíveis. Vai surgindo no espírito do fiel servidor comunista uma crescente revolta, um nojo bem expresso, de como a ditadura agia para eliminar meros dissidentes, por mais pacíficos e inofensivos que fossem. Georg age como um agente modificador de Gerd, mesmo sem que ambos tivessem a menor consciência disso. A vileza dos cabos elétricos de microfones e escutas eletrônicas do grampeamento pela STASI do apartamento de Georg de certa forma acaba atingindo a todos os personagens de forma diferente.

O ponto alto do filme é o capitão Gerd, que, mediante toda a violência que o regime impunha àquelas pessoas, vai se revoltando intimamente a ponto de vir a proteger Georg, quando dá sumiço à prova material de quem tinha escrito um artigo, sob pseudônimo, e que foi publicado na prestigiosa revista da Alemanha Ocidental, a Der Spiegel, mesmo com o risco de ter sua “carreira no politburo” destruída. O índice de suicídio na Alemanha comunista começou a crescer e chegou a suplantar o que havia na Polônia ocupada por Moscou, e a ditadura já não mais publicava tal índice. O artigo, contrabandeando para o ocidente, era exatamente denunciando isso, o que afinal chocou todo o povo alemão. A luta íntima entre o que Gerd acreditava – e que o desiludiu profundamente – e a sua consciência é sensacional.

E isto é só uma das maneiras da história ser lida. Há, ainda, a fascinante personagem Christa, do sofrimento por que passava além dos aviltamentos sexuais impostos a ela pelo chefe da STASI, na sua luta íntima entre manter a sua liberdade e condição de atriz e o amor que sente por Georg, cujas obras ela interpretava. Trata-se de um filme cheio de reviravoltas, quase um ‘thriller’, que, apesar de duas horas e vinte minutos de duração, tem-se a sensação de ter durado apenas quinze minutos, como acontece com os filmes muito bons.

Aos brasileiros eu recomendo: vejam esse filme com atenção e extrapolem para aquilo que um dia poderá vir a ocorrer no Brasil, caso não tenhamos a habilidade de livrar o país dessa infecção social e política que eu chamo de “esquerdopatia militante recorrente”.

Saudações,

F.VIANNA

francisco.vianna@terra.com.br

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