ANO III




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Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008
Desastre de Doha

No começo era o GATT, o Acordo Geral de Tarifas e Comércio, na sua sigla em inglês; um organismo internacional que impedia (ou ao menos tentava) que países ricos impusessem barreiras protecionistas aos produtos dos países pobres, tática comum depois da 1a Guerra Mundial. Era muito difícil, por exemplo, exportar laranja para os EUA nos anos 70/80; como proteção ao seu ineficiente mercado cítrico, os americanos taxavam absurdamente as importações, ou subsidiavam a produção interna.
                            Agora é a OMC, Organização Mundial do Comércio, a julgar os contenciosos internacionais. A função é a mesma, e a gente ia se dando razoavelmente bem. Ganhávamos muito mais do que perdíamos. Derrotamos o Canadá, os EUA e vários outros países, provando que seu protecionismo era predatório, desonesto. De tempos em tempos os sócios da OMC se reuniam e traçavam a estratégia dos anos seguintes. A capital do Qatar, Doha, abrigou a reunião em 2001, e o nome pegou. Era a “rodada Doha”.
                            Um belo dia, Lullla chegou a mais uma de suas etílico-cartesianas deduções: “A gente podemo fazê um crube só cos amigo. A gente ajuntamo os pobre pra negociá cos rico. Qui nem qui eu fazia cus sindicatu.” Assim, num passe de mágica, Lullla decidiu que haveria uma liga de pobres; uma releitura das imbecilidades sobre uma nova sociedade esquerdizada, criada por pseudo-intelectuais no século XIX e endossada no XX por gente como Jean-Paul Sartre. A URSS caiu de podre, o Muro de Berlim foi derrubado, e ainda tem gente nessa. Caramba. A China, muy amiga, percebeu a chance, e explorou nossa bobagem; fingiu aceitar a “brilhante” idéia e propôs que se o Brasil apoiasse sua entrada na OMC, retribuiria à altura o favor de compadre. Chegado num compadrio, Lullla enfiou a China na Organização, apesar dos protestos mundiais. Começou nosso desastre. Para piorar, Celso Amorim era (é!) nosso representante na OMC. Sem comentários.
                            Os chineses só pensam no povo. No deles, claro. Explodiram nossas intenções de integrar o Conselho de Segurança da ONU e torpedearam o sonho lulllista: O consenso na rodada Doha. Demos outro tiro no pé, apoiando nosso predador. Os chineses não acreditavam haver gente tão otária no mundo. Como são tolos. Como nós somos tolos. Criamos um monstro. Lullla, se soubesse ler, entenderia a metáfora de Frankenstein. O antigo e famoso livro de Mary Shelley dizia, metaforicamente, do perigo de criarmos nossos próprios monstros e passar de criadores a vítimas.
                            Resumo da ópera: Desde 2003, o governo brasileiro vem desdenhando todos os acordos bilaterais dos quais poderia tirar excelentes resultados. A ALCA foi rejeitada para agradar Hugo Chávez e seus seguidores psicopatas, alguns deles ocupando o primeiro escalão em Brasília. Deu no que deu; perdemos outra vez. Os chilenos ficaram milionários ocupando um lugar que poderia ser nosso. A burrice nos tirou da fila. Mas havia, na cabeça dessa gente de poucas luzes, um acordo mágico, uma saída milagrosa: A rodada Doha, onde tudo daria certo, o protecionismo subsidiado acabaria e exportaríamos para todo o planeta. Nossos grandes amigos chineses nos apoiariam e resolveriam a problema. Deu no que deu. A China, aliada à Índia, destruiu essa tática infantil e ocupou nosso lugar no mercado internacional. De quebra, nos invadiu com suas quinquilharias falsificadas e/ou de péssima qualidade. Na última hora, tentamos mudar de lado. Não deu certo. Perdemos. Dançamos. Lembram quando, em 2005, Lullla disse que enriqueceríamos exportando mamona como combustível? Pobres dos que acreditaram. Essa mamona que iria para a Europa vai servir, no máximo, de munição para estilingue. Perdemos a rodada Doha. A China nos passou o rodo. Novamente, o mundo ri do Brasil. Virou moda rir do Brasil.
                            Ante o fracasso retumbante, Celso Amorim saiu-se com essa: “…Agora vamos ter de nos concentrar em coisas que dão resultados.” Inacreditável. Se trabalhasse numa empresa privada, Amorim seria sumariamente demitido e processado por perdas e danos; isso se sobrevivesse à surra que tomaria dos colegas por falir a empresa. Mas no governo Lullla o fracasso faz parte do jogo; a vitória é que é um acidente. Afinal, a cúpula de Brasília não perde nada com mais esse desastre de nossa política internacional. Nós é que perdemos. Aqui, o governo é uma entidade separada, dissociada do País. Coisa do lulllismo. O jornalista e economista Alberto Tamer sentenciou: “Doha: Erramos do começo ao fim.” Serve como epitáfio.
                                                        *****

                             Ao transformar a inútil secretaria nacional da pesca em outro ministério (utilíssimo como cabide de emprego), o presidente mandou outra de chorar: Prometeu que, como há a reforma agrária no campo, haverá uma reforma “aquária” na água. Essa espécie de quinta dimensão gramatical em que ele vive é espelho de seus raciocínios: Sem nenhum fundamento. Ele fala exatamente como pensa.

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