ANO VI




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Domingo, 17 de Janeiro de 2010
Newsletter Rogerio Mendelski 1801


HAITI, TRAGÉDIA E TERROR

 

Depois de uma tragédia como a que destruiu a capital do Haiti, a etapa seguinte é o terror que se espalha com a mesma intensidade das epidemias e das desgraças pessoais. Não se pode afirmar que Porto Príncipe tenha restaurado a autoridade governamental sobre a população sobrevivente, simplesmente por que não há controle contra o caos reinante na capital haitiana. E o caos, em circunstâncias como a do terremoto, transforma-se no fator gerador de terror incontrolável. Todas as energias sinistras. mas reprimidas pela lei e pela organização social, emergem com uma força de provocar arrepios e medo coletivo. O caos poderia se definido como algo confuso, desordenado e absolutamente sem leis. No livro de Gênesis, é a mistura confusa dos elementos do mundo, antes de receberem uma ordem e no entendimento de Pitágoras, o caos é aquilo que ainda não foi ordenado. Para os gregos, etimologicamente, a palavra significa abismo. Assim está Porto Príncipe e seus três milhões de habitantes. A cidade perdeu suas referências, suas leis que já eram frágeis e os depoimentos dos que estão no local da tragédia confirmam todas as previsões do que aconteceria no dia seguinte ao terremoto. Disparos de armas de fogo são ouvidos a todo o momento, especialmente à noite quando a escuridão alia-se ao caos. Supermercados, lojas, prédios comerciais que desabaram parcialmente já foram saqueados por ladrões e pela população pobre e faminta. Quem ainda tem uma casa, defende-a disparando contra quem se aproxima dela. Há pessoas feridas pelas ruas, misturadas a corpos insepultos e quem consegue se aproximar de algum grupo de voluntários implora por socorro, comida ou por apenas um pouco de água. Mas o quadro geral de Porto Príncipe é o mais grave de todos os que o mundo já viu em situações semelhantes por que o país também pode estar sendo sepultado como nação. O Haiti parece estar distante de Deus, como se estivesse destinado a ser um limbo de tragédias. O mesmo horror do regime de François Duvalier que tinha como efígie sua polícia conhecida como os “tontons macute”, cuja continuidade foi mantida pelo filho Baby Doc, ressurgiu das fendas provocadas pelo terremoto. Oremos todos pelo país, com um povo que nasceu para ser perseguido pelas tragédias e pelos horrores inexplicáveis da vida humana.

A RECONSTRUÇÃO

 

O apelo feito pelo presidente francês Nicolas Sarkozi para que as nações amigas do Haiti promovam uma grande conferência visando a reconstrução do país precisa ser considerado com a maior rapidez possível. Mas o controle de todos os recursos destinados ao Haiti necessita de uma permanente fiscalização internacional, como uma espécie de Plano Marshall, promovido pelos aliados, após a destruição de boa parte da Europa ao final da Segunda Guerra Mundial. Caso contrário, a elite corrupta do país – filhote do regime Duvalier - irá se apoderar dos donativos que o mundo se prepara para enviar ao Haiti.

 

NICARÁGUA, 1972 (1)

 

Em 23 de dezembro de 1972, Manágua, capital da Nicarágua, foi destruída por um terremoto da magnitude 6,2 graus (inferior, portanto, ao de Porto Príncipe, 7 graus), seguido de outros dois tremores de  5 e de 5,2 graus. Morreram 10 mil pessoas e 20 mil ficaram feridos. Os tremores foram de uma profundidade de 5 km com o seu epicentro distante apenas 4 quilômetros a nordeste da capital. Na época, observadores compararam Manágua às cidades japonesas de Hiroshima e Nagazaki. A antevéspera do Natal nicaragüense, com a destruição da cidade, segundo o jornal La Prensa, foi descrita assim; “Após as cenas de pesadelo, a única iluminação era a de um céu vermelho pelos incêndios incontroláveis provocados pelos sismos”.

 

NICARÁGUA, 1972 (2)

 

O país era dominado pela dinastia Somoza desde os anos 30 e o ditador de plantão, major-general Anastácio Somoza Debayle, conhecido como Tacho, se encarregou de saquear o país, depois da ajuda internacional. A família ampliou sua imensa fortuna de maneira inescrupulosa, não apenas se apropriando dos milhões de dólares enviados por países solidários, mas obrigando os setores empresariais do país a comprarem terras na periferia de Manágua – todas do clã Somoza – para a construção de uma nova capital.

 

NICARÁGUA, 1972 (3)

 

Mas o crime maior do ditador Somoza talvez tenha sua marca no estilo de rapinagem inimaginável pelo mundo que socorreu a Nicarágua. Boa parte da “nova” fortuna de Tacho Somoza surgiu da venda de sangue doado pelas nações às vítimas do terremoto. Em 1979, Somoza foi destituído pela revolução sandinista e em 1981, em Assunção, Paraguai, onde estava refugiado. Sua vida terminou com um tiro de bazuca. O atentado teve como autores militares de um comando sandinista. O povo de Manágua dançou nas ruas ao saber da notícia.

 

 

 

QUE NÃO SE REPITA

 

Que o exemplo nefasto ocorrido na Nicarágua, não se repita no Haiti. Nada é impossível em países que nunca conheceram a Democracia. As tragédias, para alguns, podem se transformam em fonte inesgotável de fazer fortuna.

news@rogeriomendelski.com.br

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