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Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008
COMO ESTÃO AS ENTRANHAS DE NATAL?

Públio
José
-
jornalista

(publiojose@digizap.com.br)

                        Quero lhe fazer um convite para, juntos, iniciarmos uma
viagem mental. Quero lhe pedir também que você esqueça - nem
que seja por uns breves momentos - seus problemas pessoais,
seus cheques a cobrir, o título que está preste a ir para
cartório, o desemprego que lhe assusta, até seus problemas
familiares, para refletirmos sobre o meio ambiente de Natal.
Quero que você vire suas lembranças para trás e rememore as
condições que a natureza deixou de herança para Natal.
Natal, linda cidade, brindada com rios, dunas, brisa suave,
clima ameno, lugar bom para se viver, imune a cataclismos,
terremotos, enchentes… Natal dos poetas (”em cada esquina
um jornal”- lembra-se?). Natal do ar mais puro da América
Latina. Ah, Natal… Tanto é bela e atraente que está cheia
de gringos querendo encher-lhes os espaços com seus
investimentos, sonhos, devaneios - e malandragens também.
Muita malandragem.

                        Agora, quero chamar sua atenção para um detalhe importante:
vamos traçar um paralelo entre a poluição das entranhas de
Natal e a poluição das entranhas dos nossos políticos, dos
nossos governantes, das pessoas que tiveram nas mãos os
recursos e as condições políticas para não permitir a
degradação ambiental de Natal e que, lamentavelmente, nada
fizeram. Quero, junto com você, estabelecer a seguinte
verdade: se o interior da nossa cidade está poluído agora é
porque está poluído também o interior delas, as tais
“expressões políticas”. Aliás, quero lhe propor uma sentença
bem enfática: a poluição já habitava o interior delas muito
antes da degradação ambiental atingir Natal em cheio. O
mundo mudou bastante nos últimos tempos e os modelos
administrativos seguiram as trepidantes mudanças que se
processaram nos grandes aglomerados urbanos. E eles, na
qualidade de líderes, acordaram para essa nova realidade?

                        Tendo na mão estrutura e recursos para pensar e agir
diferente, de ousar em suas ações administrativas, porque
não o fizeram? A realidade é que as entranhas de Natal estão
apodrecendo - e os políticos não estão nem aí. Suas atenções
estão voltadas para ocupação maior de seus espaços
individuais, suas idiossincrasias mais evidentes, suas
manifestações de insensibilidade mais visíveis. Os lençóis
freáticos de Natal, suas nascentes, seus rios e córregos
estão morrendo e não se vê, no meio político, nenhuma
preocupação ou providência, nenhuma atitude para resolver
esta questão. Da natureza não podemos reclamar, não é
verdade? Natal é rodeada de dunas que funcionam como
verdadeiras esponjas de armazenagem de água. Ao mesmo tempo
em que armazenam, servem também de filtros naturais.
Coroando toda essa bela engenharia ambiental, uma farta
vegetação protege esse verdadeiro tesouro. Entretanto, o
meio ambiente de Natal está trilhando um caminho de retorno
quase impossível.

                         De todo esse aparato natural o que temos hoje? Águas que
chegam ao interior das dunas já poluídas; lençóis freáticos
contaminados por coliformes fecais e matéria orgânica em
geral; lençóis profundos contaminados por nitrato oriundo
da matéria orgânica maturada nas fossas e sumidouros; rios
alimentados, a céu aberto, por esgotos infectos,
enegrecendo o que a natureza nos entregou, há anos atrás,
límpido e puro. Se a água - e todo conjunto natural que lhe
cerca, como dunas, rios, córregos, matas, manguezais - é
tão importante para a qualidade de vida de nosso povo,
porque não criarmos o Plano Diretor de Águas de Natal? Um
documento robusto, completo, voltado à cura das entranhas
da cidade. Fica a sugestão. A solução seria trilateral:
curaria a natureza, melhoraria substancialmente a qualidade
de vida do nosso povo - e daria um novo direcionamento às
catracas mentais dos nossos políticos. É sonhar demais?

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