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Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010
Newsletter Rogerio Mendelski 2901


LAMARCA, O JUSTICEIRO

 

Nesta quarta-feira, o ministro Paulo Vannuchi, dos Direito Humanos, esteve no Fórum Social Mundial falando sobre a Comissão da Verdade, que faz parte do Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3). Para ele, não há revanchismo, mas o que se quer é jogar luz sobre uma parte de nossa história recente para que ela não se repita nunca mais, evitando o esquecimento desse período.

 

A coluna quer colaborar com o ministro, contando como se deu a morte do tenente Alberto Mendes Júnior, da PM paulista, quando ele e um grupo de soldados cairam prisioneiros do ex-capitão Carlos Lamarca e mais quatro comparsas no Vale da Ribeira, em maio de 1970.

 

O tenente Mendes Junior e 20 soldados foram emboscados pelo grupo de Lamarca, às 21hs do dia 8 de maio. Mal armados (revólveres 38 e fuzis Mauser 1908) sequer puderam reagir diante do fogo dos FAL automáticos que foram furtados por Lamarca de um quartel do Exército quando desertou para ingressar na VPR.

 

Com muitos feridos, Mendes Júnior rendeu-se com as seguintes condições: levaria os feridos para serem medicados e voltaria para se unir aos outros soldados já prisioneiros do grupo de Lamarca. Como o grupo estava com dificuldades de locomoção na mata, quando Mendes Junior  voltou, ficou acordado que apenas ele seguiria como prisioneiro, sendo seus soldados libertados.

 

Lamarca inicialmente tinha seis companheiros, mas dois deles se perderam na mata e foram presos por outros militares que acossavam o grupo. Os cinco restantes seguiram com Mendes Júnior, mas havia atraso no deslocamento por que o tenente estava sob constante vigilância, além de ser mais um para comer o escasso alimento que o grupo dispunha.

 

Foi nesse contexto que o grupo decidiu formar um “Tribunal Revolucionário” para julgar Mendes Junior. Dois terroristas ficaram cuidando do tenente, enquanto Lamarca e outros dois afastaram-se para dar a sentença: “justiciamento”.

 

Retornando ao local onde esta o prisioneiro, Lamarca determinou que seu comparsa, Yoshitame Fujimore, matasse Mendes Júnior a golpes de coronha de seu fuzil. Fujimore desferiu vários golpes na cabeça e na nuca do jovem tenente que ficou contorcendo-se de dor. Como não morreu com os primeiros golpes, Diógenes Sobrosa de Souza terminou o “justiciamento” com mais pancadas em Mendes Junior, esmigalhando a sua cabeça.

 

O corpo do tenente Mendes Júnior foi enterrado ali mesmo, na mata. Em agosto, Ariston de Oliveira Lucena (mais um dos cinco de Lamarca) foi preso e indicou o local onde estava o corpo. Exumado, Mendes Junior foi promovido a capitão e sepultado com honras militares, na capital paulista.

 

A NOTA DA VPR

 

Um mês depois, em setembro, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) divulgou um comunicado ao povo brasileiro sobre a morte do tenente Mendes Junior. “… A sentença de morte de um tribunal revolucionário deve ser cumprida por fuzilamento. No entanto, nos encontrávamos próximos ao inimigo, dentro do cerco que pode ser executado em virtude da existência de muitas estradas na região. O tenente Mendes foi condenado a morrer a coronhadas de fuzil, e assim o foi, sendo depois enterrado”.

 

O GRUPO

 

Os cinco militantes da VPR que mataram o tenente Mendes Júnior são: Carlos Lamarca, morto em 17/09/1971; Yoshitame Fujimore, morto em 05/12/1970, num enfrentamento com o DOI/CODI/6ª Região Militar; Diógenes Sobrosa de Souza, preso em Porto Alegre, em 12/12/1970, condenado a morte, teve sua pena transformada em prisão perpétua e, finalmente, reduzida para 30 anos de prisão. Com a Lei de Anistia (esta mesma que Paulo Vannuchi quer revogá-la) Diógenes foi posto em liberdade; Ariston de Oliveira Lucena, condenado a morte, foi solto pela Lei da Anistia e Gilberto Faria Lima fugiu para o exterior e seu paradeiro nunca ficou conhecido.

 

HOMENAGEM EM PORTO ALEGRE

 

Diógenes Sobrosa de Souza suicidou-se em Santa Rita do Passa Quatro (SP), no dia 17/11/1999. Foi homenageado em Porto Alegre dando o seu nome a uma rua no loteamento Quinta do Portal, por proposição do vereador Ervino Besson, em 19/05/2004.

 

OS DADOS

 

As informações desta coluna foram tiradas do livro “A Verdade Sufocada”, de autoria de Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel reformado do Exército Brasileiro. É apenas um contraponto do livro “Tortura, Nunca Mais”.

 

news@rogeriomendelski.com.br

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