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Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008
ZEITGEIST TROPICAL

Você já ouviu esse termo “Zeitgeist”? É alemão e a pronúncia é “tzaitgaist”.
Adotado pelos filósofos românticos alemães do século dezoito como uma
tradução do latim genius (espírito guardião) e saeculi (do século), o termo
foi popularizado pelo filósofo Hegel em seu livro Filosofia da História.
Zeitgeist é traduzido para o português como “espírito do tempo”,
significando – em outras palavras – o nível de avanço intelectual e cultural
do mundo em uma época.

De acordo com os sábios, zeitgeist é a experiência de um clima cultural
dominante que define uma era. Tentando simplificar: esse clima cultural é
resultante das experiências dos indivíduos que compõem as nações que
convivem numa determinada era. É o espírito daquela era.

Parece complicado, né? Deixa eu tentar de outra forma: anos atrás estive
diante do desafio de criar uma campanha de motivação interna para a Dana,
empresa na qual eu trabalhava. Havia um discurso muito bonito, calcado
naquela história de visão, missão e valores, que dizia que a empresa era o
máximo. Era honesta, consciente de sua importância no meio ambiente,
socialmente responsável, focada na fabricação de produtos de qualidade, etc
etc etc. Igualzinho àquele texto que você lê todo dia em sua empresa.

No fundo, esses textos são apenas promessas que não têm nenhum valor até que
alguém as cumpra. E nenhum papel colado na parede garante que qualquer
promessa será cumprida. O cenário era aquele que encontramos na grande
maioria das empresas: promessas feitas por meia dúzia de cabecinhas,
embaladas em papel de presente pelos caras do marketing e distribuídas ao
mercado, enquanto as pessoas responsáveis pela entrega eram superficialmente
comunicadas da promessa que havia sido feita.

No meio do processo de criação surgiu a luz, quando discutíamos um bordão
batido: nós somos a Dana. Nós fazemos a empresa. O pulo do gato aconteceu
quando invertemos a proposta: a Dana somos nós. Melhor ainda: a Dana sou eu.
Esse passou a ser o mote da campanha, que trazia em si uma definição
fundamental. Quando dizíamos que “nós somos a Dana”, compartilhávamos a
responsabilidade. Quando dizíamos que “a Dana somos nós”, considerávamos que
a empresa seria a resultante do comportamento do grupo. Mas com “a Dana sou
eu” conseguíamos o desejado: a Dana só será uma empresa de qualidade se eu
for um funcionário com qualidade. Só será responsável com o meio ambiente se
eu for responsável com o meio ambiente. A Dana é o que eu decidir que eu
sou. Ponto. O “zeitgeist” da Dana naquele momento – se fosse possível –
seria a resultante dos valores, convicções, atitudes e esforços de todos os
seus 5 mil funcionários naquele momento. Seria o espírito daquela era.

Volto então ao nosso zeitgeist. Se pudéssemos fazer uma experiência de
retornar no tempo, por exemplo, para o começo dos anos cinqüenta, o espírito
de nossa era seria o de um país esperançoso pelo futuro, cheio de boas
notícias, com obras para todo lado, títulos mundiais no futebol, no tênis,
no boxe e no basquete e um presidente que prometia fazer cinqüenta anos em
cinco. Havia um entusiasmo evidente, que podia ser “sentido no ar”. Na
segunda metade dos anos sessenta e durante os setenta, sentia-se no ar o
clima de preocupação, da mão pesada dos militares, da censura. Mesmo com o
país crescendo, o espírito da época seria o espírito do medo.

Nos anos oitenta e começo dos noventa, o espírito da época era o da
abertura. O Brasil descobria a democracia, votávamos para presidente,
acabávamos com a inflação e experimentávamos o começo do jogo da
globalização. Eu diria que o zeitgeist da época era o da perplexidade, como
já escrevi em texto anterior.

E hoje? Qual é o “zeitgeist” do Brasil? Sinceramente, não sei. Tentei
aplicar aquele “o Brasil sou eu”, mas não deu certo. Nunca vi o país tão
dividido, tão desigual. Pobres contra ricos, pretos contra brancos, índios
contra não-índios, ignorantes contra educados. E piorando.

O espírito de nossa época será esse? O do confronto? Que pena.
Perderemos para nós mesmos.

Luciano Pires
WWW.lucianopires.com.br

Um comentário
  1. só discordo que na metade dos anos sessenta enos anos setenta o espírito era o do medo, tinha medo quem queria implantar a ditadura comunista, todos os demais brasileiros estavam otimistas, no espírito do este é um país que vai pra frente

    por Ingo Schmidt — 28/08/2008 às 11:20 pm

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