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Quinta-feira, 17 de Novembro de 2005
ÁGUA ASSASSINA
Todos são levados a pensar que a maior causa da morte hoje no mundo está relacionada com as guerras, as drogas, a violência urbana, os acidentes de trânsito ou outra questão qualquer. Grande engano. Segundo estudos do Conselho Mundial da Água, divulgado recentemente pelo seu presidente mundial, Loic Fouchon, na cidade mexicana de Monterrey, a água de má qualidade é responsável pela morte diária de 25 mil pessoas ao redor do mundo. Esse número é infinitamente maior do que os óbitos diários ocorridos em função de qualquer outra causa. Na reunião do México, segundo matéria da Gazeta Mercantil, preparatória ao “IV Fórum Mundial da Água” que será realizado em março próximo na Cidade do México, Loic Fouchon lembrou que “1,5 bilhão de pessoas não têm acesso à água suficiente para sua sobrevivência, e que provavelmente o dobro desse número carece de saneamento”.

Ainda segundo Fouchon, o objetivo desses encontros é chamar a atenção dos governantes mundiais a respeito do problema, comum a vários continentes e presente numa quantidade muito grande de países. “É nosso desejo, nossa responsabilidade, levar aos mais marginalizados, aos mais pobres, aos mais fracos, a esperança de uma vida em que a busca de água limpa já não seja a obsessão de cada instante”, ressaltou o presidente do Conselho Mundial da Água. Este é um problemão, uma chaga social para o qual cabe uma profunda reflexão das pessoas que detém cargos públicos. É um fato angustiante tomarmos conhecimento de que, em pleno século XXI, para milhões e milhões de pessoas em várias regiões da terra, o único objetivo de vida, a ocupação mais premente para a conquista da sobrevivência seja a busca de água limpa, de água com a qualidade necessária para ser consumida.

Enquanto largas parcelas da população gastam seu tempo em shoppings, realizando os seus desejos de consumo – por menores e mais insignificantes que sejam; enquanto grandes massas se regozijam em estádios de futebol, em dias ensolarados à beira de praias, de piscinas, em churrascos com amigos, em fazendas, chácaras, granjas, solidificando o seu lazer; enquanto altos executivos planejam novos investimentos, novas plantas industriais, novas estratégias de marketing para ganhar mais e mais espaços, mercados e influência; enquanto lideranças políticas põem em prática novos discursos, novos posicionamentos, novas alianças tendo em vista futuros embates eleitorais, há um contingente de 1,5 bilhão de pessoas errantes no mundo, vagando de um lado para outro, planejando seu tempo, suas ações tão somente em função da busca de água limpa para continuar a viver.

Mas voltemos a Loic Fouchon e sua cruzada contra a insensibilidade e falta de visão humanista da grande maioria dos governantes e altos funcionários estatais. Para ele “cada pessoa no mundo tem direito à água e é importante que todos os governos dediquem mais recursos de seus orçamentos para a água, isto é, ao que chamei de: a água antes dos fuzis”. Pois é reconhecido mundialmente o esforço de inúmeros países em investirem mais e mais em armamento – enquanto grandes parcelas da sua população não têm água de qualidade para beber. O que se vê, na realidade, é a busca frenética do aumento dos lucros pelas grandes corporações, os governos a cada dia mais envolvidos em corrução e projetos de cunho eleitoreiro, as pessoas entrando num processo, a cada dia mais profundo, de individualização de suas ações e interesses, etc, etc. Já os menos favorecidos………

Por outro lado, um estudo da ONU aponta conclusões extremamente graves para a humanidade ao longo do século XXI. Chega a mostrar, inclusive, que os maiores problemas neste século, para os governos, será a administração dos itens água e lixo. Segundo a ONU, países entrarão em guerra pela dificuldade de encontrar água disponível em quantidade e qualidade para suas populações, enquanto nações fronteiriças arreganharão os dentes umas para as outras em função do destino das enormes quantidades de lixo que produzem. Por enquanto, estes são assuntos áridos demais, chatos demais, técnicos demais para habitarem as páginas principais de jornais e revistas, e os horários nobres da tv, mas que se tornarão, num futuro próximo, tema comum às pessoas ao redor da mesa. Aí talvez seja tarde demais, pois a fatura cobrada poderá ser extremamente dolorosa para todos. Você duvida?

Públio José – jornalista
(publiojose@digizap.com.br)

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