Platitudes
O festival de incompetência demonstrado no seqüestro da adolescente Eloá, terminando com sua morte, pode ser resumido numa frase do coronel Eduardo Félix de Oliveira, comandante da operaçã “O que deu errado foi o tiro que ele (seqüestrador) disparou”. Pois é. Essa brilhante platitude é digna do Conselheiro Acácio, personagem de Machado de Assis: Tirando o que deu errado, deu tudo certo. Genial.
O comandante se esqueceu de um detalhe interessante: A Polícia estava lá exatamente para impedir que Lindemberg Alves disparasse a arma. O resto é o resto. Outra frase do mesmo autor: “Se a operação fosse bem sucedida, os policiais estariam sendo aplaudidos e o resultado não estaria sendo contestado.” Brilhante, meu senhor. Mais um pensamento altamente filosófico, digno de Acácio; além de concordar que a operação foi um retumbante fracasso, o oficial disse o óbvio; mas parece não entender que o povo, roendo as unhas frente à TV por cinco longos dias, queria exatamente aplaudir a Polícia. Todos desejavam que as reféns fossem libertadas vivas e inteiras. Já o seqüestrador poderia sair aos pedaços que ninguém se importaria. Deu exatamente o inverso.
Bom; antes que amigos, alunos, conhecidos e leitores, da Polícia Militar ou não, torçam o nariz, vamos esclarecer: A culpa não foi, individualmente, dos policiais; na grande maioria, agiram com coragem e dedicação, tentando salvar a vida das reféns. Mas o resultado do trabalho em equipe foi um desastre. Oficiais da PM ouvidos (incluindo outros coronéis) concordam, e alguns afirmam que a causa de muitos dos erros teria sido uma briga interna, uma guerra de egos. Entretanto, concordam que o Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE, uma das mais respeitadas equipes táticas da América Latina), com um extenso rol de operações vitoriosas, são bem preparadas e equipadas para esse tipo de ocorrência, fato que torna ainda mais difícil entender o fracasso.
Especialistas daqui e do exterior foram unânimes ao apontar um dos graves erros na condução dessa tragédia: Permitir que Nayara, a adolescente libertada, voltasse ao cativeiro. Isso não tem precedente na história policial em todo o mundo. Foi uma trapalhada inacreditável. Um brasileiro instrutor da SWAT, polícia de elite dos EUA, foi enfático ao afirmar à TV Globo que tem vergonha da sucessão de absurdos no caso, e confirmou não só o excelente preparo do GATE quanto a disputa interna para dirigir o caso. Resultad a família da menor Nayara vai processar o Estado, e nós todos vamos pagar a conta. De novo.
Espantosamente, quem estava no comando da “operação” não era a Polícia, e sim o bandido. Todas as exigências dele foram prontamente atendidas – inclusive o retorno de uma vítima libertada! É de chorar. Outro especialista lembrou que a função da Polícia é criar necessidades para o bandido – e não facilidades. Deu no que deu. Inventamos uma novidade no mercado de seqüestros, uma nova versão da Síndrome de Estocolmo, como é chamada a tendência de algumas vítimas a criar laços afetivos com os seqüestradores: Agora temos a Síndrome de Santo André, na qual a autoridade tem dó do bandido e lhe restitui a refém libertada!
Perguntado por que o seqüestrador não foi abatido por atiradores de elite, o coronel respondeu, candidamente, que havia essa possibilidade, com boas condições de tiro, mas não se pode atirar numa “criança” que sofre de crise de paixão. Então tá; Santo André virou Verona e Romeu e Julieta encarnaram nas personagens dessa tragédia. Beleza.
Outra de assustar: O bandido tinha acesso irrestrito a rádio e TV. Sabia em tempo real todas as notícias sobre o caso. Foi triste ver Ana Maria Braga, da Globo, praticamente implorando que o seqüestrador concedesse uma entrevista. Na segunda-feira, a loira, compungida, lamentou que Lindemberg tivesse sido entrevistado ao vivo, direto do cativeiro… pelo concorrente SBT!
Depois de tudo isso, só resta esperar que os portugueses criem uma bela fornada de piadas de brasileiro. Vamos destronar até os papagaios. Nós merecemos.
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Supla, filho da candidata Marta Suplicy, disse que o adversário Gilberto Kassab tem “cara de bisnaguinha”. Noves-fora a infantilidade típica dessa criatura, será que ele ficaria feliz ao ouvir as respostas dos eleitores paulistanos sobre cara de quê tem a mãe dele?

